HQ interativa com caso completo. Leia cada quadro, avance e responda às decisões quando aparecerem. Todas as alternativas — certas e erradas — recebem um feedback completo.
Cena 1 de 5
Rafael, 24 anos, chega à UBS numa manhã de sábado, pouco antes do encerramento do plantão. Está visivelmente ansioso. Pede para falar com "alguém de confiança" e diz que precisa ser rápido porque não pode faltar ao trabalho.
Cena 2 de 5
No consultório, Rafael conta que teve uma relação sexual há cerca de 30 horas, na qual o preservativo rompeu. Ele evita detalhes, olha para os lados antes de falar e comenta: "não posso deixar minha família sabendo, só quero saber se dá pra fazer alguma coisa".
Decisão 1 — Como conduzir esse primeiro momento da consulta?
Essa conduta está correta. Diante de uma possível exposição ao HIV há cerca de 30 horas, a prioridade técnica é garantir sigilo e agilidade: a PEP tem uma janela de tempo limitada para iniciar, e cada etapa administrativa ou moral que atrasa a triagem reduz a chance real de proteção.
Acolher sem julgamento também sustenta o vínculo — Rafael já demonstrou medo de exposição e de julgamento; uma escuta que não reforça esse medo é o que permite que ele continue relatando informações relevantes para o cuidado.
Para a prática, sempre que a vinheta indicar possível exposição recente, trate a agilidade da triagem e o sigilo como prioridades imediatas, antes de qualquer outra investigação.
Essa conduta precisa ser revista. Investigar o "comportamento de risco" antes de iniciar a triagem introduz um filtro moral que não existe na indicação técnica de PEP — a decisão de iniciar a profilaxia depende do tempo decorrido desde a exposição, não de uma avaliação de conduta.
Na prática, esse tipo de abordagem tende a inibir o relato (Rafael já demonstrou temer julgamento) e consome um tempo que, nessa situação, é o recurso mais escasso — cada minuto de atraso aproxima o caso do fim da janela terapêutica.
A orientação transferível é: separar completamente a investigação de contexto (que pode continuar depois) da decisão sobre iniciar a triagem de urgência, que não deve esperar por juízo de conduta.
Cena 3 de 5
Com a triagem ágil e sigilosa, confirma-se que Rafael ainda está dentro da janela de tempo para início da PEP. Ele relaxa visivelmente ao perceber que não foi julgado, e começa a falar mais abertamente sobre sua rotina.
Cena 4 de 5
Já com a PEP iniciada, Rafael comenta que essa não é a primeira vez que corre esse risco: seu parceiro atual resiste ao uso de preservativo e ele tem receio de insistir, pois depende financeiramente dele no momento.
Decisão 2 — Diante dessa nova informação, qual é a conduta mais coerente?
Essa conduta está correta. Rafael descreveu uma barreira real e interdependente (dependência financeira do parceiro, dificuldade de negociação) — pactuar um plano possível agora, com testagem, insumos e acompanhamento, reconhece essa barreira em vez de ignorá-la.
Articular rede de apoio (serviço social, grupos de apoio, retorno programado) amplia as opções de Rafael ao longo do tempo, sem condicionar o cuidado a uma mudança que ele já sinalizou não conseguir sustentar hoje.
Para decisões futuras, quando a pessoa relatar uma barreira estrutural ou relacional concreta, construa o plano em torno do que é possível agora, mantendo outras estratégias disponíveis para quando as condições mudarem.
Essa conduta precisa ser revista. Orientar Rafael a "exigir" preservativo desconsidera a barreira que ele acabou de relatar — a dependência financeira do parceiro não desaparece porque a orientação foi reforçada com mais firmeza.
Na prática, uma exigência que a pessoa já indicou não conseguir cumprir tende a gerar frustração e afastamento do serviço, sem de fato reduzir o risco — o oposto do que se busca com uma abordagem baseada em redução de danos.
A orientação transferível é: diante de uma barreira relacional ou social já identificada, substituir a exigência de uma meta idealizada por um plano pactuado que a pessoa realmente consiga sustentar.
Cena 5 de 5 — Fechamento
O caso de Rafael reúne três elementos centrais deste módulo: a PEP como medida de urgência com janela de tempo limitada; a vulnerabilidade como algo que combina dimensão individual, social (a dependência financeira do parceiro) e programática (a agilidade e o sigilo do serviço); e a redução de danos como prática que constrói proteção possível sem condicionar o cuidado a metas idealizadas.
Decisões tomadas neste caso: