Um erro que a rotina tornou possível
Caso para análise
Em uma UTI Neonatal com 100% de ocupação, dois recém-nascidos prematuros — com quadros clínicos semelhantes — estavam internados em incubadoras vizinhas. Durante o plantão noturno, um técnico de enfermagem que cobria a escala de um colega, com sinais de fadiga por excesso de jornada, preparou um antibiótico. Ao se aproximar do leito, percebeu que a pulseira de identificação de um dos recém-nascidos havia escorregado — consequência da perda de peso fisiológica — e estava no fundo da incubadora. Confiando na memória e na etiqueta da incubadora, não solicitou a reposição da pulseira nem fez a dupla checagem. No mesmo instante, um alarme soou intensamente e uma equipe de emergência entrou no setor. Nessa distração, o profissional administrou a medicação de um recém-nascido no outro. O erro só foi percebido duas horas depois, quando a enfermeira da ala conferiu os prontuários e notou a discrepância entre a prescrição e o registro de administração.
O que você vai aprender
Ao final deste módulo, você será capaz de:
- diferenciar a abordagem do sujeito e a abordagem do sistema diante de um erro (modelo de James Reason), reconhecendo falhas ativas e falhas latentes;
- aplicar o Protocolo de Londres (Vincent et al., 2024) para investigar um evento adverso real a partir de 8 fatores contribuintes, sem atribuir culpa individual;
- reconhecer o que sustenta uma cultura justa e um sistema de notificação não punitivo, e conhecer o Plano de Segurança do Paciente da unidade;
- identificar ações de melhoria estruturadas, da mais simples à barreira tecnológica mais forte.
Duas formas de olhar para o erro: sujeito e sistema
Diante de um erro, o psicólogo James Reason descreve duas formas possíveis de abordagem. A abordagem do sujeito se detém nos atos inseguros de quem estava na ponta do cuidado — o esquecimento, a desatenção, o descuido — e busca, no limite, um culpado. A abordagem do sistema parte de outro pressuposto: erros ocorrem porque um sistema mal elaborado combina falhas ativas (as ações ou omissões de quem estava diretamente envolvido, visíveis e imediatas) com falhas latentes (condições silenciosas — de organização, de dimensionamento de equipe, de tecnologia disponível — que já existiam antes do erro e o tornaram possível).
Reason também descreve esse funcionamento pelo modelo conhecido como "Teoria do Queijo Suíço": cada camada de proteção de um sistema de saúde (protocolos, checagens, tecnologia, supervisão) tem falhas, como fatias de queijo suíço com furos. Um incidente só ocorre quando os furos de várias camadas se alinham ao mesmo tempo — nenhuma falha isolada, sozinha, costuma ser suficiente. É por isso que investigar um evento adverso significa perguntar quantas camadas de proteção falharam simultaneamente, não apenas qual pessoa estava de plantão.
Investigando o caso: o Protocolo de Londres
O diagrama de Ishikawa e os 6 M's, já explorados no Módulo 2, são uma ferramenta de análise de causa raiz. Para investigar este caso, o módulo usa uma ferramenta diferente e mais recente, desenvolvida especificamente para incidentes de saúde: o Protocolo de Londres (Vincent, Taylor-Adams e Stanhope, 1998; revisão de Vincent et al., 2024). Baseado no modelo de acidente organizacional de James Reason, ele organiza a investigação em 8 categorias de fatores contribuintes — do paciente ao contexto institucional mais amplo — evitando parar na causa mais óbvia e superficial.
Como interagir: toque em cada fator contribuinte para ver como ele se manifestou no caso e a ação de melhoria correspondente. Explore os 8 antes de seguir.
Da causa à ação: barreiras de força diferente
Nem toda ação de melhoria tem a mesma força. Diante das causas identificadas no caso, quatro ações foram estruturadas, cada uma com um nível de força diferente:
A esses quatro pontos soma-se o gerenciamento do ambiente e dos fatores humanos: reduzir ruídos que dificultam a comunicação e dimensionar a equipe de forma a evitar a fadiga e a sobrecarga — fatores contribuintes críticos para lapsos e atos inseguros.
Cultura justa: notificar sem medo
Os princípios da gestão de riscos e os 7 passos para a segurança do paciente (NPSA, 2004), já vistos no Módulo 2, sustentam a base sobre a qual se apoia este módulo. Aqui, o foco é o que torna esses princípios praticáveis no dia a dia: uma cultura justa, na qual a equipe se sente segura para notificar um erro sem medo de punição. A tendência humana, diante de um erro, é procurar uma causa ou um culpado — julgamentos rápidos e a culpabilização de uma pessoa tendem a obscurecer uma verdade mais complexa e a impedir que o processo seja de fato corrigido. Uma cultura de segurança positiva se apoia na confiança mútua: os profissionais notificam porque confiam que a instituição vai investigar as causas, não procurar quem punir.
Isso se traduz em práticas concretas: sistemas de notificação de eventos adversos voluntários, não punitivos e confidenciais; rotinas de compartilhamento e discussão dos incidentes entre as equipes; e, quando fatores humanos estão envolvidos na causa, o uso de uma matriz de responsabilização — que distingue um erro humano previsível de uma violação deliberada de norma — para orientar a resposta mais justa, em vez de uma punição automática. A notificação ao NSP e ao sistema nacional (Notivisa) deixa de ser um risco pessoal e passa a ser parte do processo de aprendizagem da instituição.
Como interagir: assista à videoaula da professora abaixo. Logo após o vídeo, professores podem baixar a apresentação em PowerPoint usada nesta aula.
O Plano de Segurança do Paciente
O Plano de Segurança do Paciente é o documento que aponta situações de risco e descreve as estratégias e ações definidas pelo serviço de saúde para a gestão de risco, visando a prevenção e a mitigação dos incidentes, desde a admissão até a transferência, a alta ou o óbito do paciente (RDC nº 36, de 25 de julho de 2013, art. 3º, inciso IX). Instituído pela Portaria Ministerial nº 529/2013, contribui para a qualificação do cuidado em saúde em todos os estabelecimentos de saúde do território nacional. O Núcleo de Segurança do Paciente (NSP) é a instância responsável por conduzir esse plano na prática.
Aplicando ao caso
Como interagir: leia o caso, escolha uma alternativa e analise o feedback antes de concluir.
Fechando o módulo — e o curso
Retomando o caso
A troca de recém-nascidos não aconteceu por displicência de uma única pessoa — aconteceu porque fatores do paciente, do profissional, da tarefa, da equipe, do ambiente de trabalho, da tecnologia disponível e da própria organização se combinaram. Investigar dessa forma, sob uma cultura justa e sem procurar um culpado, é o que abre caminho para corrigir o processo: passagem de plantão padronizada, dupla checagem, rastreabilidade por código de barras e monitoramento constante das pulseiras.
Aprender com o erro protege o próximo recém-nascido
- investigar um evento adverso é corrigir o processo, não procurar um culpado.
- barreiras sistêmicas — como a rastreabilidade por código de barras — são mais fortes do que reforçar apenas a atenção individual.